Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

 

Este notável Siddur (Livro de Rezas) do rito Italiano, datado de 1471, e provavelmente destinado ao uso de uma senhora, foi manuscrito em fino velino pelo notável académico e escriba, Abraham Farissol.

 

O mesmo começa com 72 versos relacionados com os 72 nomes que a tradição cabalista utiliza para mencionar D'us. O texto de abertura, na imagem acima, «eilu meah berachot», são as cem bençãos recitadas diariamente preliminares a Pessuke D'zimrah, minuciosamente decoradas com elaborados motivos florais ao estilo Ferrarense.

 

O texto litúrgico é notável, pela simetria adequada à utilização de uma mulher judia. Particularmente interessante é uma alteração pouco tradicional numa das bençãos da aurora em que se agradece a D'us por (entre outras coisas) «me teres feito mulher e não homem». Para além disto "provar" que o siddur era destinado ao uso por uma mulher, pode-se encontrar mais uma folha que corrobora este facto, onde se encontra escrito que «Abraham Farissol, filho de Mordecai Farissol, edita este Siddur para o honorável senhor (nome ilegível) e sua esposa (nome também ilegível)».

 

A obra várias vezes censurada em diferentes locais, carrega ainda a assinatura do censor, Camilo Jagel em 1611. Curiosamente o mesmo individuo que, autores dos séculos XVII e XVIII, como Giulio Bartolotti ("Bibliotheca Magna Rabbinica", 1675-93, Roma), dizerem tratar-se de um antigo rabino. Apontaram que o Rabino Abraham Yagel, que viveu sucessivamente em Luzzara, Veneza, Ferrara e Sassuolo, no final de sua vida, teria-se convertido ao cristianismo, adoptando o nome de Camilo Jagel e passando a trabalhar para o Papa Paulo V como censor de livros hebreus entre 1619 e 1620, na localidade de Ancona. As datas não conferem, mas por (muito) poucos anos...

 

Para ver em pormenor basta clicar nas imagens



publicado por Marco Moreira às 16:21
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Entrada para a Sinagoga Bevis Marks, Londres

Foto: Jornal "THE GUARDIAN"

 

De acordo com Alfred A. Zara, da Foundation for the Advanced Sephardic Studies & Culture, não existem registos de judeus na Grã-Bretanha durante o período Românico, ao contrário da Península Ibérica, França e Alemanha. Os primeiros judeus chegaram depois da Conquista Normanda em 1066. Após a conquista, Guilherme da Normandia convidou judeus financeiros de Rouen a se estabelecerem em Inglaterra.

Prosperaram em Inglaterra, principalmente no negócio dos empréstimos, facto que mais tarde ditou a sua condição de “indesejados” por se tornarem alvo de preconceito por parte de alguns Nobres, seus principais devedores. Essa condição resultou na sua expulsão em 1290.

Depois da expulsão dos Judeus de Espanha em 1492 e de Portugal em 1497, e do estabelecimento da Inquisição, um grupo de judeus mercadores portugueses, ostensivamente católicos, mas consistentemente marranos (muitos dos quais prontos para retornar ao Judaísmo), estabeleceu-se em Inglaterra.

Em 1656, o Rabino Menasseh ben Israel de Amsterdão fez uma visita a Inglaterra para tentar persuadir o Governo Inglês a autorizar os judeus a se estabelecerem uma vez mais em solo britânico. Foi então que conheceu Oliver Cromwell, que se dispunha favorável à ideia. Após a deliberação da comissão reguladora, relativamente à questão, foi anunciado que o Decreto de Expulsão de 1290 já não tinha relevância.

Seguidamente, os mercadores portugueses “criaram” uma sinagoga numa habitação, e retornaram abertamente ao Judaísmo. O Rabino Menasseh oficiou numa ocasião um serviço religioso. A comunidade judaica é assim estabelecida na Inglaterra pelos judeus sefarditas, facto que, ao longo dos anos atraiu muitos marranos de Espanha e Portugal, fugidos das Inquisição.

Muitos destes mercadores portugueses eram bem sucedidos e atingiram posições proeminentes na sociedade britânica. A comunidade sefardita prosperou e construiu a sua primeira sinagoga em Bevis Marks (Londres), no ano de 1701.

 

Refugiados judeus ashkenazitas da Polónia e Alemanha foram ajudados pelos sefarditas a emigrarem para a Grã-Bretanha. Ainda assim, em número pouco expressivo, pelo que os sefarditas permaneceram como a maior comunidade por mais de 100 anos. Nas suas actas ficaram registados variados nomes de famílias de origem Ibérica, tais como: Montefiore, Lindo, Disraeli, Mocatta, Da Costa, etc.

Somente no século XIX, após uma gigantesca vaga de refugiados polacos e da Europa de leste, a composição demográfica da comunidade judaica britânica foi alterada e famílias ashkenazitas, tais como os Rothschilds, se tornaram proeminentes. Os judeus sefarditas continuaram a exercer cargos de grande importância na sociedade britânica, mas foram largamente ultrapassados em número, pelo elevado fluxo de emigrantes ashkenazitas que então aí se fixaram.

Por volta de 1912, um novo fluxo demográfico de judeus sefarditas chegou à ilha, desta vez desde a Turquia e Grécia, principalmente Salónica. Devido ao declínio do Império Otomano e o controlo de Salónica pelos gregos, ocorre um enorme êxodo sefardita, com muitos partindo para os Estados Unidos da América, França e Inglaterra. Aqueles que chegaram a Inglaterra criaram uma nova comunidade separada da Bevis Marks, aceitando no entanto, autoridade da mais antiga.

Com a ajuda da Sinagoga Bevis Marks e da Fundação David Sassoon, a comunidade Oriental conseguiu construir a sua própria sinagoga em Holland Park (Londres) no ano de 1928. Embora ambas as comunidades tivessem nas suas origens os Judeus de Espanha e Portugal, foi a Sinagoga Holland Park que manteve a sua herança histórica com idioma Judeo-Espanhol e o Ladino. A Sinagoga Bevis Marks tinha as suas origens quase exclusivamente na língua portuguesa, em vez do Ladino.

Hoje, haverão cerca de 10 sinagogas sefarditas na Grã-Bretanha com uma forte vida comunitária, grande parte delas situadas em Londres, mas a Bevis Marks continua a ser a sinagoga sefardita “per se”.

 

 

 

Em baixo, poderá ver a imagem de um Siddur (livro de rezas) utilizado em 8 de Março de 1841 na Sinagoga Bevis Marks, que serviu para comemorar o êxito que assistiu Sir Moses Montefiore na sua missão ao Leste:

 

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publicado por Marco Moreira às 17:20
 
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 Ilustração de Pedro Vieira

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