Domingo, 23 de Maio de 2010

 

Quem já visitou a cidade de Praga na República Checa certamente se deparou com uma estranha inscrição encontrada no famoso crucifixo da Ponte Carlos. Estranha porque não está escrita em latim, grego ou mesmo checo, mas sim em hebraico! Trata-se de um dos mais conhecidos episódios de tensão entre a Igreja Cristã e a comunidade judaica local.

 

Entre 1693 e 1700, tiveram lugar em Praga três julgamentos, conduzidos pelas altas autoridades do Estado e da Igreja. No primeiro, Elias Backoffen, um proeminente representante da comunidade judaica, foi julgado no Tribunal de Appelattus sob a acusação de blasfémia contra a Santa Cruz, que alegadamente teria feito através de uma carta codificada enviada a um amigo.

 

Depois de onze meses de procedimentos burocráticos, Backoffen foi considerado culpado e multado em 20 de Março de 1694, apesar do teor da carta nunca ter sido "descodificado". Ainda assim, o tribunal insistiu no seu carácter herético, descoberto através de uma "especial revelação do Todo-Poderoso". A multa seria usada para financiar a inscrição de letras douradas em caracteres hebraicos onde se lia: "Santo, Santo, Santo é o Senhor das Hostes" sob o corpo de Jesus no crucifixo - a frase é dita num dos momentos mais solenes da prece colectiva judaica durante os serviços religiosos: a Kedushá. A inscrição era uma simbólica humilhação e degradação dos Judeus de Praga uma vez que as palavras serviam para reverenciar o Deus Único de Israel e não o messias cristão.

 

A condenação de Backhoffen coincidiu com o início da investigação do caso Simon Abeles, um rapaz Judeu que, no Verão de 1693 teria fugido de casa e pedido que o baptizassem. Secretamente confiado aos cuidados de um Judeu convertido ao cristianismo, o rapaz foi então enviado para o Colégio de São Clemente onde os Jesuítas o prepararam para o baptismo. Entretanto o seu pai Lazar Abeles encontrou-o e levou-o de volta para casa. Os Jesuítas não levantaram qualquer objecção uma vez que o rapaz havia sido negligente no catecismo. Mais tarde se soube que a razão que levara o jovem Simon a procurar o baptismo não era de cariz teológica, mas sim fugir de um pai violento que se afastara dos mais básicos valores de amor paternal. Com o seu regresso, Simon continua a ser maltratado pelo pai regularmente.  Em 21 de Fevereiro de 1694 Simon é severamente espancado pelo seu pai e outro familiar de seu nome Lobl Kurtzhandel. A dada altura sofre uma pancada tão forte que cai desamparado e parte o pescoço. Os dois homens tentam esconder o trágico desfecho enterrando o corpo do rapaz.

 

Depois de encontrado, as autoridades ordenam a autópsia do jovem Simon e prendem seu pai, sua mãe Leah e o cozinheiro da família. Um informador acusa os três de envenenamento do rapaz que mais tarde se vem a provar não ser a causa de morte. Entretanto, Lazar Abeles enforca-se de forma a fugir à habitual tortura, deixando Lobl Kurtzhandel como único arguido a enfrentar o tribunal. Procedimentos inquisitoriais foram seguidamente orquestrados pelos Jesuítas que aparentemente tencionavam tirar partido do caso para fins religiosos, nomeadamente a beatificação do rapaz.

 

Sob pressão, o Tribunal de Appellatus fabrica a acusação de homicidio premeditado por ódio à Fé Cristã. Em 31 de Março de 1694, Simon Abeles é enterrado com honras de mártir, com grande pompa e circunstância por parte da Igreja de Nossa Senhora de Tyn em Praga.

 

Kurtzhandel é condenado a ser espancado até à morte na Roda de tortura e é executado a 16 de Outubro de 1694. Antes da sua morte confessou publicamente o homicidio, mas não a sua premeditação assim como um hipotético cariz religioso, apesar desta ser a única saída dada pelo tribunal para a não execução da pena. A tortura que sofreu antes da estocada final só terminou quando este aceitou ser baptizado.

 

Um terceiro caso famoso foi o da judia Juttel Gunzburg. Em 08 de Abril de 1699 dois homens degolam a mulher levando consigo jóias de sua pertença. O corpo é lançado ao Rio Vltava. Em 14 de Maio de 1699, o Tribunal de Appellatus sentencia Johann Fitzthum (estudante) a decapitação e o padre Johann Wunderlich a uma vida de clausura num mosteiro. O público, com base em sentimentos anti-Judaicos, pediu a sua libertação. Violentos distúrbios provocados por estudantes colegas de Fitzthum levaram ao adiamento execução até 29 de Outubro do ano seguinte.



publicado por Marco Moreira às 17:25
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

 

Este notável Siddur (Livro de Rezas) do rito Italiano, datado de 1471, e provavelmente destinado ao uso de uma senhora, foi manuscrito em fino velino pelo notável académico e escriba, Abraham Farissol.

 

O mesmo começa com 72 versos relacionados com os 72 nomes que a tradição cabalista utiliza para mencionar D'us. O texto de abertura, na imagem acima, «eilu meah berachot», são as cem bençãos recitadas diariamente preliminares a Pessuke D'zimrah, minuciosamente decoradas com elaborados motivos florais ao estilo Ferrarense.

 

O texto litúrgico é notável, pela simetria adequada à utilização de uma mulher judia. Particularmente interessante é uma alteração pouco tradicional numa das bençãos da aurora em que se agradece a D'us por (entre outras coisas) «me teres feito mulher e não homem». Para além disto "provar" que o siddur era destinado ao uso por uma mulher, pode-se encontrar mais uma folha que corrobora este facto, onde se encontra escrito que «Abraham Farissol, filho de Mordecai Farissol, edita este Siddur para o honorável senhor (nome ilegível) e sua esposa (nome também ilegível)».

 

A obra várias vezes censurada em diferentes locais, carrega ainda a assinatura do censor, Camilo Jagel em 1611. Curiosamente o mesmo individuo que, autores dos séculos XVII e XVIII, como Giulio Bartolotti ("Bibliotheca Magna Rabbinica", 1675-93, Roma), dizerem tratar-se de um antigo rabino. Apontaram que o Rabino Abraham Yagel, que viveu sucessivamente em Luzzara, Veneza, Ferrara e Sassuolo, no final de sua vida, teria-se convertido ao cristianismo, adoptando o nome de Camilo Jagel e passando a trabalhar para o Papa Paulo V como censor de livros hebreus entre 1619 e 1620, na localidade de Ancona. As datas não conferem, mas por (muito) poucos anos...

 

Para ver em pormenor basta clicar nas imagens



publicado por Marco Moreira às 16:21
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Entrada para a Sinagoga Bevis Marks, Londres

Foto: Jornal "THE GUARDIAN"

 

De acordo com Alfred A. Zara, da Foundation for the Advanced Sephardic Studies & Culture, não existem registos de judeus na Grã-Bretanha durante o período Românico, ao contrário da Península Ibérica, França e Alemanha. Os primeiros judeus chegaram depois da Conquista Normanda em 1066. Após a conquista, Guilherme da Normandia convidou judeus financeiros de Rouen a se estabelecerem em Inglaterra.

Prosperaram em Inglaterra, principalmente no negócio dos empréstimos, facto que mais tarde ditou a sua condição de “indesejados” por se tornarem alvo de preconceito por parte de alguns Nobres, seus principais devedores. Essa condição resultou na sua expulsão em 1290.

Depois da expulsão dos Judeus de Espanha em 1492 e de Portugal em 1497, e do estabelecimento da Inquisição, um grupo de judeus mercadores portugueses, ostensivamente católicos, mas consistentemente marranos (muitos dos quais prontos para retornar ao Judaísmo), estabeleceu-se em Inglaterra.

Em 1656, o Rabino Menasseh ben Israel de Amsterdão fez uma visita a Inglaterra para tentar persuadir o Governo Inglês a autorizar os judeus a se estabelecerem uma vez mais em solo britânico. Foi então que conheceu Oliver Cromwell, que se dispunha favorável à ideia. Após a deliberação da comissão reguladora, relativamente à questão, foi anunciado que o Decreto de Expulsão de 1290 já não tinha relevância.

Seguidamente, os mercadores portugueses “criaram” uma sinagoga numa habitação, e retornaram abertamente ao Judaísmo. O Rabino Menasseh oficiou numa ocasião um serviço religioso. A comunidade judaica é assim estabelecida na Inglaterra pelos judeus sefarditas, facto que, ao longo dos anos atraiu muitos marranos de Espanha e Portugal, fugidos das Inquisição.

Muitos destes mercadores portugueses eram bem sucedidos e atingiram posições proeminentes na sociedade britânica. A comunidade sefardita prosperou e construiu a sua primeira sinagoga em Bevis Marks (Londres), no ano de 1701.

 

Refugiados judeus ashkenazitas da Polónia e Alemanha foram ajudados pelos sefarditas a emigrarem para a Grã-Bretanha. Ainda assim, em número pouco expressivo, pelo que os sefarditas permaneceram como a maior comunidade por mais de 100 anos. Nas suas actas ficaram registados variados nomes de famílias de origem Ibérica, tais como: Montefiore, Lindo, Disraeli, Mocatta, Da Costa, etc.

Somente no século XIX, após uma gigantesca vaga de refugiados polacos e da Europa de leste, a composição demográfica da comunidade judaica britânica foi alterada e famílias ashkenazitas, tais como os Rothschilds, se tornaram proeminentes. Os judeus sefarditas continuaram a exercer cargos de grande importância na sociedade britânica, mas foram largamente ultrapassados em número, pelo elevado fluxo de emigrantes ashkenazitas que então aí se fixaram.

Por volta de 1912, um novo fluxo demográfico de judeus sefarditas chegou à ilha, desta vez desde a Turquia e Grécia, principalmente Salónica. Devido ao declínio do Império Otomano e o controlo de Salónica pelos gregos, ocorre um enorme êxodo sefardita, com muitos partindo para os Estados Unidos da América, França e Inglaterra. Aqueles que chegaram a Inglaterra criaram uma nova comunidade separada da Bevis Marks, aceitando no entanto, autoridade da mais antiga.

Com a ajuda da Sinagoga Bevis Marks e da Fundação David Sassoon, a comunidade Oriental conseguiu construir a sua própria sinagoga em Holland Park (Londres) no ano de 1928. Embora ambas as comunidades tivessem nas suas origens os Judeus de Espanha e Portugal, foi a Sinagoga Holland Park que manteve a sua herança histórica com idioma Judeo-Espanhol e o Ladino. A Sinagoga Bevis Marks tinha as suas origens quase exclusivamente na língua portuguesa, em vez do Ladino.

Hoje, haverão cerca de 10 sinagogas sefarditas na Grã-Bretanha com uma forte vida comunitária, grande parte delas situadas em Londres, mas a Bevis Marks continua a ser a sinagoga sefardita “per se”.

 

 

 

Em baixo, poderá ver a imagem de um Siddur (livro de rezas) utilizado em 8 de Março de 1841 na Sinagoga Bevis Marks, que serviu para comemorar o êxito que assistiu Sir Moses Montefiore na sua missão ao Leste:

 

Para ver em pormenor basta clicar nas fotos



publicado por Marco Moreira às 17:20
 
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 Ilustração de Pedro Vieira

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