Quarta-feira, 06 de Janeiro de 2010

 

O projecto Inquisição de Lisboa on-line, em curso no Arquivo Nacional da Torre do Tombo desde finais de Julho de 2007 e tornado possível pelo mecenato da REN - Redes Energéticas Nacionais SGP, S.A., está finalmente acessível ao público através da Internet.

 

O trabalho foi desenvolvido em várias vertentes, desde o imprescindível tratamento e descrição arquivística, passando pela intervenção curativa de alguma documentação, até à digitalização dos processos e dos livros da Inquisição de Lisboa, permitindo o acesso remoto e gratuito a uma vastíssima quantidade de documentos.

 

Poderão ser consultados gratuitamente, na WEB os registos descritivos e as respectivas imagens/objectos digitais, no endereço http://digitarq.dgarq.gov.pt/

 

Neste endereço poderá encontrar brevemente toda a informação técnica relativa ao desenvolvimento do Projecto, nomeadamente:

 

  • A descrição;
  • As intervenções de conservação;
  • A digitalização;
  • O storage;
  • Normas e procedimentos aplicáveis aos trabalhos de descrição e digitalização.

 

Um Projecto desta dimensão só foi possível com a mobilização de praticamente todos os recursos internos, tendo ainda necessidade de realizar concursos externos para o fornecimento de serviços: a) de numeração de 417.727 fólios de forma a permitir o controlo dos documentos durante a execução da digitalização e garantir a segurança da informação; b) preparação física de conservação de cerca de 50.000 fólios para assegurar a integridade/ inteligibilidade da informação no novo suporte; c) digitalização de 1.950.000 imagens a cores.

 

[ Via Arq. Nacional Torre do Tombo]



publicado por Marco Moreira às 13:56
Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

 

Yosef Haim Yerushalmi, 1932-2009

 

Um erudito inovador e conhecedor amplo da história judaica cuja meditação na tensão entre a memória colectiva de um povo e o registo efectivo mais prosaico do passado influenciou uma geração de pensadores, faleceu esta Terça-feira em Manhattan.

 

Um escritor elegante e hipnótico narrador, Yerushalmi ganhou a sua reputação como um dos maiores historiadores judeus da sua geração por canalizar assuntos eclécticos, como a história do judeus expulsos de Espanha e Portugal, o messianismo, a história intelectual do Judaísmo moderno alemão e o relacionamento de Freud com a sua religião. Em 1982, Yerushalmi publicou talvez o seu mais influente trabalho, "Zakhor: Jewish History and Jewish Memory" um fino volume cujo título perfura o imperativo hebraico: Lembrar!

 

Com cerca de 100 páginas, "Zakhor" era um exame do conflito entre as histórias colectivas que revigoravam o Judaísmo como uma cultura e a crónica verificável da própria história. O Crítico Harold Bloom, revisando-o no “The New York Review of Books”, previu que o livro talvez «se una ao cânone de Literatura de Sabedoria Judaica». Muitos académicos discutiriam se de facto se uniu a esse cânone, ainda que interpretassem sua tese de forma diferente.

 

Yerushalmi estava atento, por exemplo, ao facto dos judeus durante a leitura do livro da Páscoa Judaica, continuassem a imaginar-se presentes no Êxodo do Egipto, mesmo com historiadores interrogando-se se podia ter havido 10 pragas e o Mar ter sido aberto. Se tais histórias falham em perder o seu poder de inspiração, Yerushalmi pareceu perguntar: O que esse diz sobre o poder de história?

 

Leon Wieseltier, o redactor literário de “The New Republic” e antigo aluno de Yerushalmi em Harvard, disse que este tinha sido rasgado entre o poder de memória e a complexidade da perspectiva histórica e havia lutado por reconciliar os dois ramos durante grande parte da sua vida, embora talvez não conclusivamente.

 

«História envolve desapego crítico; memória envolve um imediatismo profundo," (…) O Dr. Yerushalmi, abrigou uma profunda incerteza e um certo grau de pessimismo sobre a capacidade do estudo nutrir uma cultura viva.»

 

Harold Bloom, na sua crítica, escreveu:

 

«O Dr. Yerushalmi preocupa-se que na idade moderna a Escritura tenha sido substituída por História conforme arbítrio validado das ideologias judaicas e que essa substituição cedesse caos.»

 

Yosef Haim Yerushalmi nasceu no Bronx em 20 de Maio de 1932, no seio de uma família falante de Yidish criada em Pinsk e Odessa e que imigrou para os Estados Unidos. Seu pai, um professor de Hebraico, encheu-o com o amor aos livros hebraicos e o mandou-o para a Salanter Yeshiva no Bronx Oriental.

 

Recebeu o bacharelado da Yeshiva University em 1953 e o doutoramento da Columbia University em 1966, escrevendo a sua dissertação sobre Isaac Cardoso, um Marrano médico do sec. XVII. Trabalhou durante um ano como Rabino na Sinagoga Beth Emeth em Larchmont, Nova Iorque. Mas preferiu uma vida de estudo, começando fora como instrutor em Rutgers e mais tarde tornando-se professor de Hebraico e História Judaica em Harvard.

 

Em 1980 ficou fascinado por Columbia através de Salo Baro, o enorme académico judeu que se tinha aposentado em 1963 mas que ainda lançava volumes de História Judaica. Para além de mais tarde ficar com a cadeira de Salo Baron, Yerushalmi também dirigiu o “Columbia Center for Israel and Jewish Studies” durante 28 anos. Muitos dos seus estudantes tornaram-se eminentes historiadores do Judaísmo.

 

Jonathan Sarna, um professor de estudos Judaicos em Brandeis, disse que o especial talento do Yerushalmi era «produzir livros que muitas pessoas poderiam ler». Citou "Haggadah and History" (1975), que mostrou como a História Judaica podia ser estudada entendendo diferentes edições do livro da Páscoa Judaica através do tempo. De entre outros trabalhos admiráveis a reter “From Spanish Court to Italian Ghetto”, um estudo de 1971 sobre os Judeus ibéricos, e “Freud’s Moses: Judaism Terminable and Interminable” (1991).

 

De acordo com Yerushalmi, Freud sugeriu em "Moses and Monotheism" que havia uma quase genética transmissão de memórias inconscientes. Apesar da falta de qualquer evidência científica para tal teoria, Yerushalmi discutiu que explicou a Freud «o poderoso sentimento que, para melhor ou pior, realmente não se pode deixar de ser Judeu» ainda que, como Freud fez, rejeitássemos a própria religião.

 

~

 

A partir do artigo original (em inglês) do 'New York Times'



publicado por Marco Moreira às 13:34
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

 

Este notável Siddur (Livro de Rezas) do rito Italiano, datado de 1471, e provavelmente destinado ao uso de uma senhora, foi manuscrito em fino velino pelo notável académico e escriba, Abraham Farissol.

 

O mesmo começa com 72 versos relacionados com os 72 nomes que a tradição cabalista utiliza para mencionar D'us. O texto de abertura, na imagem acima, «eilu meah berachot», são as cem bençãos recitadas diariamente preliminares a Pessuke D'zimrah, minuciosamente decoradas com elaborados motivos florais ao estilo Ferrarense.

 

O texto litúrgico é notável, pela simetria adequada à utilização de uma mulher judia. Particularmente interessante é uma alteração pouco tradicional numa das bençãos da aurora em que se agradece a D'us por (entre outras coisas) «me teres feito mulher e não homem». Para além disto "provar" que o siddur era destinado ao uso por uma mulher, pode-se encontrar mais uma folha que corrobora este facto, onde se encontra escrito que «Abraham Farissol, filho de Mordecai Farissol, edita este Siddur para o honorável senhor (nome ilegível) e sua esposa (nome também ilegível)».

 

A obra várias vezes censurada em diferentes locais, carrega ainda a assinatura do censor, Camilo Jagel em 1611. Curiosamente o mesmo individuo que, autores dos séculos XVII e XVIII, como Giulio Bartolotti ("Bibliotheca Magna Rabbinica", 1675-93, Roma), dizerem tratar-se de um antigo rabino. Apontaram que o Rabino Abraham Yagel, que viveu sucessivamente em Luzzara, Veneza, Ferrara e Sassuolo, no final de sua vida, teria-se convertido ao cristianismo, adoptando o nome de Camilo Jagel e passando a trabalhar para o Papa Paulo V como censor de livros hebreus entre 1619 e 1620, na localidade de Ancona. As datas não conferem, mas por (muito) poucos anos...

 

Para ver em pormenor basta clicar nas imagens



publicado por Marco Moreira às 16:21
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Entrada para a Sinagoga Bevis Marks, Londres

Foto: Jornal "THE GUARDIAN"

 

De acordo com Alfred A. Zara, da Foundation for the Advanced Sephardic Studies & Culture, não existem registos de judeus na Grã-Bretanha durante o período Românico, ao contrário da Península Ibérica, França e Alemanha. Os primeiros judeus chegaram depois da Conquista Normanda em 1066. Após a conquista, Guilherme da Normandia convidou judeus financeiros de Rouen a se estabelecerem em Inglaterra.

Prosperaram em Inglaterra, principalmente no negócio dos empréstimos, facto que mais tarde ditou a sua condição de “indesejados” por se tornarem alvo de preconceito por parte de alguns Nobres, seus principais devedores. Essa condição resultou na sua expulsão em 1290.

Depois da expulsão dos Judeus de Espanha em 1492 e de Portugal em 1497, e do estabelecimento da Inquisição, um grupo de judeus mercadores portugueses, ostensivamente católicos, mas consistentemente marranos (muitos dos quais prontos para retornar ao Judaísmo), estabeleceu-se em Inglaterra.

Em 1656, o Rabino Menasseh ben Israel de Amsterdão fez uma visita a Inglaterra para tentar persuadir o Governo Inglês a autorizar os judeus a se estabelecerem uma vez mais em solo britânico. Foi então que conheceu Oliver Cromwell, que se dispunha favorável à ideia. Após a deliberação da comissão reguladora, relativamente à questão, foi anunciado que o Decreto de Expulsão de 1290 já não tinha relevância.

Seguidamente, os mercadores portugueses “criaram” uma sinagoga numa habitação, e retornaram abertamente ao Judaísmo. O Rabino Menasseh oficiou numa ocasião um serviço religioso. A comunidade judaica é assim estabelecida na Inglaterra pelos judeus sefarditas, facto que, ao longo dos anos atraiu muitos marranos de Espanha e Portugal, fugidos das Inquisição.

Muitos destes mercadores portugueses eram bem sucedidos e atingiram posições proeminentes na sociedade britânica. A comunidade sefardita prosperou e construiu a sua primeira sinagoga em Bevis Marks (Londres), no ano de 1701.

 

Refugiados judeus ashkenazitas da Polónia e Alemanha foram ajudados pelos sefarditas a emigrarem para a Grã-Bretanha. Ainda assim, em número pouco expressivo, pelo que os sefarditas permaneceram como a maior comunidade por mais de 100 anos. Nas suas actas ficaram registados variados nomes de famílias de origem Ibérica, tais como: Montefiore, Lindo, Disraeli, Mocatta, Da Costa, etc.

Somente no século XIX, após uma gigantesca vaga de refugiados polacos e da Europa de leste, a composição demográfica da comunidade judaica britânica foi alterada e famílias ashkenazitas, tais como os Rothschilds, se tornaram proeminentes. Os judeus sefarditas continuaram a exercer cargos de grande importância na sociedade britânica, mas foram largamente ultrapassados em número, pelo elevado fluxo de emigrantes ashkenazitas que então aí se fixaram.

Por volta de 1912, um novo fluxo demográfico de judeus sefarditas chegou à ilha, desta vez desde a Turquia e Grécia, principalmente Salónica. Devido ao declínio do Império Otomano e o controlo de Salónica pelos gregos, ocorre um enorme êxodo sefardita, com muitos partindo para os Estados Unidos da América, França e Inglaterra. Aqueles que chegaram a Inglaterra criaram uma nova comunidade separada da Bevis Marks, aceitando no entanto, autoridade da mais antiga.

Com a ajuda da Sinagoga Bevis Marks e da Fundação David Sassoon, a comunidade Oriental conseguiu construir a sua própria sinagoga em Holland Park (Londres) no ano de 1928. Embora ambas as comunidades tivessem nas suas origens os Judeus de Espanha e Portugal, foi a Sinagoga Holland Park que manteve a sua herança histórica com idioma Judeo-Espanhol e o Ladino. A Sinagoga Bevis Marks tinha as suas origens quase exclusivamente na língua portuguesa, em vez do Ladino.

Hoje, haverão cerca de 10 sinagogas sefarditas na Grã-Bretanha com uma forte vida comunitária, grande parte delas situadas em Londres, mas a Bevis Marks continua a ser a sinagoga sefardita “per se”.

 

 

 

Em baixo, poderá ver a imagem de um Siddur (livro de rezas) utilizado em 8 de Março de 1841 na Sinagoga Bevis Marks, que serviu para comemorar o êxito que assistiu Sir Moses Montefiore na sua missão ao Leste:

 

Para ver em pormenor basta clicar nas fotos



publicado por Marco Moreira às 17:20
 
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