Domingo, 05 de Julho de 2009
Em 1160 da Era Comum, o Rabino Moshê Ben-Maimon (Maimonides, ou simplesmente o Rambam), com cerca de 30 anos somente, publica o seu primeiro trabalho monumental "Comentário à Mishná" (1), o primeiro livro do género e uma compreensiva explicação da Mishná de acordo com a Guemará. Imediatamente, foi reconhecido não somente como génio, como também enquanto o filósofo mais singular, revolucionário e controverso do seu tempo.
 
Não só era o comentário (curiosamente escrito em árabe) uma compilação monumental por si só, como conteve dois tratados em filosofia e pensamento Judaico, uma introdução de 8 capítulos ao "Pirke Avot" e uma outra introdução para o décimo capítulo do tratado talmúdico "Sanhedrin" que trata da perspectiva Judaica sobre a vida após a morte e crença.

Na sua «Introdução ao 10.º Capítulo de Sanhedrin» na Mishná, ele começa por dizer que é o ponto apropriado para discutir "Muitos princípios básicos da fé, de grande valor". Inicia discutindo o que ele entende por princípios básicos e salienta que uma vez que há uma grande confusão acerca daquilo que um Judeu deve crer, ele sente que é apropriado explicar exactamente aquilo que um Judeu deve entender e crer para ser considerado de entre os fiéis.
 
Qualquer um que não acredite em todos os princípios, é classificado na categoria técnica de "Apikorus", um herege que degrada e desdenha os Sábios da Bíblia Hebraica, e que seria merecedor de pena capital enquanto o Templo se manteve erguido. 
 
Em próximos artigos irei transcrever um por um, os princípios de fé judaica de acordo com Maimonides, com comentários e explicações que permitam entendê-los na sua plenitude.
 
Muitos dos contemporâneos de Maimonides, como Nachmanides (o Ramban) e o Rabino Yosef Albo, disputaram os seus 13 princípios de fé, embora entendessem-nos todos como verdadeiros. A maior disputa caía no facto de categorizar alguém que violasse um dos princípios como sendo "Apikorus". 
 
Provavelmente, muitos argumentaram, é inconsequente se uma pessoa simples é levada a crer, por exemplo, que D'us tivesse uma forma corpórea, uma vez que alguns versículos levam a crer isso para um leigo. Embora um erro crasso, devido à sua magnitude teológica, provavelmente não deveria ser caso de desqualificação para alguém deixar de ser considerado um Judeu crente.
 
Maimonides e seus discípulos, no entanto, confirmaram conscientemente cada um dos pontos. Na disputa acima, opôs-se, no célebre livro "Guia dos Perplexos", que se alguém crê que D'us tem um corpo físico, este também seria divisível, uma vez que todos os corpos físicos são. Ele seria também limitado, e uma vez que corpos físicos ocupam tempo, tendo um princípio, teriam também um tamanho e/ou envergadura finita. Essencialmente, uma vez negando um dos últimos onze princípios estaria indirectamente implícita a violação dos dois primeiros, que todos concordam fazer parte do sine qua non do ser Judeu.

Uma outra grande disputa, teve uma direcção absolutamente oposta: Como poderia haver somente 13 princípios? Não teria um Judeu de crer que toda a letra, toda a palavra na Torah é verdadeira? Não seria um caso mais grave de "apikorsus" o facto de alguém que negasse uma só palavra da Torah do que alguém que negasse a vinda do Messias.
 
Apesar de tudo, nos últimos 800 anos, os 13 princípios de Maimonides foram aceites pelos judeus. Eles formam parte integrante das rezas diárias e na forma de hino composto pelo Rabino Daniel Ben-Yehuda por volta do ano 1300 EC em Roma, de seu nome "Ygdal" (hebraico: Magnífico).
 
O impacto que tiveram, inclusive no pensamento de diversos filósofos cristãos, é difícil de apurar, mas formam certamente parte significativa dos pilares da herança monoteísta que os Judeus deram ao mundo.

 
NOTAS:
 
(1) O título original do comentário foi "O Livro da Luz" em árabe Kitab al-Sira, e ocasionalmente designado como Sefer Ha-Ma'or em hebraico.

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publicado por Marco Moreira às 16:29
 
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