Domingo, 19 de Julho de 2009

Alberto João Jardim, conhecido entre outras coisas, pelo seu acutilante ódio pelo comunismo, decidiu lançar a proposta de torná-lo proibido na nossa constituição. Mais tarde terá explicado que pretendia tornar proibitiva a ideologia totalitária, isto é, o comunismo passar a ser considerado inconstitucional tal como já é o fascismo.

 
É um facto que em Portugal, o comunismo reserva-se ao direito de exigir para si, total ou parcialmente a herança de um regime de liberdade que hoje vivemos e com isso aproveita para exigir a todos os portugueses uma dívida de gratidão para com os camaradas da extrema-esquerda. Resumindo assim um "facto" que tomo a liberdade de transformar num possível mote propagandístico do PCP: "Sem Abril não haveria liberdade, sem comunismo não haveria Abril!" 
 
 
A verdade é que não é possível fazer com clara exactidão o exercício de "como seria se isto acontece-se, ou não?". É simplesmente um exercício pouco sério do ponto de vista prático e uma vez que não nos é conferido qualquer poder profético, jamais podemos saber quando teríamos liberdade se não houvesse Abril de '74 e em que moldes essa liberdade seria estabelecida. Isto porque, com os meus breves 31 anos de vida, já discerni que cada indivíduo tem uma noção muito particular de liberdade e se para uns pode inclusive roçar a libertinagem, outros há que imaginam a mesma num conceito extremamente cativo.
 
Não deixa de ser curioso que na grande maioria dos programas da rádio, televisão e nas folhas dos jornais, claramente imbuídos pelo espírito da "esquerda democrática" consideram que a cada país difere o conceito de comunismo e que o Partido Comunista Português jamais pode ser equiparado, ao Partido Comunista Chinês ou ao antigo Soviético. Daí não poder ser considerado totalitário. "Simplesmente não faz sentido", resumem assim os célebres comentadores da nossa praça.
 
Não querendo cair na ratoeira da adivinhação por mim já expressa, não consigo deixar de especular com os meus botões, a possibilidade dos nossos camaradas comunistas terem um dia a falta de escrúpulo de proibir a proibição de ser comunista. Em nome da democracia e do pluralismo político, claro está!
 
Mas sendo assim, porque está o comunismo universal, basicamente interligado na ideologia através dos seus escritos e seus manifestos, ser considerado diferente? É obvio que existem muitas e variadas formas de comunismo tais como; Leninismo, Stalinismo, Trotskismo, Maoísmo, Titoísmo, Castrismo, Sandinismo, etc… Mas não são todas elas genericamente ligadas na sua génese e ideologia padrão?!
 
A facilidade como se desculpabiliza a ideologia e modus-vivendi dos nossos camaradas comunistas é algo quasi-nato, e difícil de explicar e exteriorizar em coerência para alguém que vive numa democracia como os Estados Unidos da América, mas a verdade é que continuamos a fazê-lo sem que nos interroguemos porque nos revemos tantas vezes em Karl Popper e Anna Arendt e a sua noção de totalitarismo e no caso particular do PCP existe um fardo gratificador que nos impede de o criticar plenamente pelo seu papel histórico na "luta pela liberdade".
 
A noção de totalitarismo é extremamente clara: é um regime político em que o estado não reconhece limites na sua autoridade e esforça-se por regular todos os aspectos da vida pública e privada. O PCP como outro partido comunista do globo que assim se qualifique é defensor deste tipo de regime, com as nuances que o diferem do fascismo, mas com a matriz que o demarca da democracia. Mas… torná-lo proibido será a solução?
 
A solução mais fácil, talvez, mas não necessariamente a melhor. Sabemos que a proibição muitas vezes martiriza o objecto proibitivo e mais tarde poder-se-á tornar um monstro que uma vez revolucionário fará danos significativos nas nossas liberdades e principalmente das gerações futuras com o peso da culpa de que são descendentes, aproveitando-se da pobreza do historicismo. Por um lado a proibição deve partir de nós mesmos, enquanto indivíduos que prezam a sua liberdade e que em honestidade política conseguem discernir de entre democracia e totalitarismo, escolhendo assim aquilo que é nobre e digno ao ser humano. Por outro lado sabemos que em democracia foram eleitos indivíduos como Adolf Hitler, e que, sendo apenas comuns mortais, nem sempre escolhemos aquilo que é melhor para nós e para a nossa liberdade.
 
Apesar das reservas que coloco a esta (im)possível proibição, tenho de admitir que no quadrante político em que está inserido só mesmo alguém com cojones a poderia propôr. A curto prazo, proibir o comunismo significaria o fim da utopia, das liberdades fúteis, do culto da preguiça e o crescimento económico-social de uma nação fortemente estruturada e diligente em valores de meritocracia e patriotismo. A longo prazo nunca poderemos adivinhar a pena que futuros revolucionários nos dariam como desrespeito pela sua verdade suprema; o comunismo. Mas se a palavra revolução está muitas vezes mais carregada de sangue que de liberdade, podemos imaginar que não seria um quadro agradável para nós, amigos da democracia.


publicado por Marco Moreira às 15:04
Terça-feira, 14 de Julho de 2009

 

Obra de António Vivaldi, interpretada por Philippe Jaroussky

 
Tradução: Verei com alegria, a alma da minha alma e coração do meu coração pleno de contentamento. E se de meu caro objecto eu estarei longe suspirarei, sofrendo cada momento...


publicado por Marco Moreira às 09:41
Domingo, 12 de Julho de 2009
 

Foto © Nathan William

 

«Invoquei o Eterno no momento de angústia e Ele ouviu-me e livrou-me das atribulações» Salmos 118:5 (1)

 

"Entre as estrituras" (2) está a descrição do profeta Jeremias do período entre 17 de Tammuz, quando as paredes de Jerusalém foram quebradas, até 9 de Av, quando o Templo Sagrado foi destruído e o exílio de Israel começou. Até aos dias de hoje, ambos os dias são observados com um jejum e uma "estritura" é feita ao percorrer as três semanas que os separam com um período de luto e arrependimento.

 

Dois mil anos de exílio físico e de trevas espirituais são lamentados. Vinte séculos de supressão puxaram a alma judaica pelo funil do exílio, revelando as suas convicções mais profundas e provocando o seu mais elevado potencial. Nestes caminhos terríveis nunca cessamos procurar D'us e é esta procura que irá ceder a "expansão Divina" de redenção final e o mundo magistral da era messiânica.

 

"Nesse dia," proclama o profeta, "o grande shofar será soado. E virão, esses perdidos na terra de Assíria e esses esquecidos na terra do Egipto, e se curvem diante D'us na montanha Sagrada, Jerusalém" (3). Nesse dia, a bondade e perfeição da criação Divina romperá pelos caminhos ocultos e florescerá numa realização espontânea.

 

Os mestres hassidicos perguntam nestes dias: «Estar triste é errado?» Os seus ensinamentos diferem em dois tipos de tristeza: merirut, uma angústia construtiva, e atzvut, uma angústia destrutiva. Merirut é a angústia de quem não só reconhece o seu fracasso, como também se entristece pelo mesmo, sobre as suas oportunidades perdidas e sobre o seu potencial não realizado; alguém que recusa tornar-se indiferente às suas deficiências pessoais e do mundo que o rodeia. Atzvut é a angústia daquele que se desesperou de si e seu semelhante, cuja melancolia o drenou de esperança e iniciativa. Merirut é a plataforma para a auto-correcção, atzvut é um fosso incompreensível.

 

Os mesmos voltam a perguntar: «Como se distingue entre estes dois tipos de tristeza?» O primeiro é activo, o segundo - passivo. No primeiro chora-se, no segundo os olhos estão secos e vazios. No primeiro a mente e o coração estão em tumulto, no segundo a mente e o coração estão apáticos e pesados. «E o que acontece quando passa, quando emergem das suas respectivas lutas?» - voltam a questionar. O primeiro floresce para a acção: resolve, planeia, tomando os seus primeiros passos que vacilam por causa da sua tristeza. O segundo vai dormir.» (4).

 

Uma forma popular dos Hassidim explicarem o primeiro tipo de angústia é através de provérbios. Eis dois exemplos do que vos falo:

 

«Não há nada mais completo que um coração partido»


«Depressão não é um pecado. Mas o que a depressão faz, nenhum pecado pode fazer»

 

 

Fontes e Notas:


(1) Recitado perante o soar do shofar em Rosh Hashaná

(2) Midrash Rabba - Lamentações 1:3

(3) Isaías 27:13

(4) Baseado no "Tanya" capítulo 3


Temas:

publicado por Marco Moreira às 15:27
Domingo, 05 de Julho de 2009
Em 1160 da Era Comum, o Rabino Moshê Ben-Maimon (Maimonides, ou simplesmente o Rambam), com cerca de 30 anos somente, publica o seu primeiro trabalho monumental "Comentário à Mishná" (1), o primeiro livro do género e uma compreensiva explicação da Mishná de acordo com a Guemará. Imediatamente, foi reconhecido não somente como génio, como também enquanto o filósofo mais singular, revolucionário e controverso do seu tempo.
 
Não só era o comentário (curiosamente escrito em árabe) uma compilação monumental por si só, como conteve dois tratados em filosofia e pensamento Judaico, uma introdução de 8 capítulos ao "Pirke Avot" e uma outra introdução para o décimo capítulo do tratado talmúdico "Sanhedrin" que trata da perspectiva Judaica sobre a vida após a morte e crença.

Na sua «Introdução ao 10.º Capítulo de Sanhedrin» na Mishná, ele começa por dizer que é o ponto apropriado para discutir "Muitos princípios básicos da fé, de grande valor". Inicia discutindo o que ele entende por princípios básicos e salienta que uma vez que há uma grande confusão acerca daquilo que um Judeu deve crer, ele sente que é apropriado explicar exactamente aquilo que um Judeu deve entender e crer para ser considerado de entre os fiéis.
 
Qualquer um que não acredite em todos os princípios, é classificado na categoria técnica de "Apikorus", um herege que degrada e desdenha os Sábios da Bíblia Hebraica, e que seria merecedor de pena capital enquanto o Templo se manteve erguido. 
 
Em próximos artigos irei transcrever um por um, os princípios de fé judaica de acordo com Maimonides, com comentários e explicações que permitam entendê-los na sua plenitude.
 
Muitos dos contemporâneos de Maimonides, como Nachmanides (o Ramban) e o Rabino Yosef Albo, disputaram os seus 13 princípios de fé, embora entendessem-nos todos como verdadeiros. A maior disputa caía no facto de categorizar alguém que violasse um dos princípios como sendo "Apikorus". 
 
Provavelmente, muitos argumentaram, é inconsequente se uma pessoa simples é levada a crer, por exemplo, que D'us tivesse uma forma corpórea, uma vez que alguns versículos levam a crer isso para um leigo. Embora um erro crasso, devido à sua magnitude teológica, provavelmente não deveria ser caso de desqualificação para alguém deixar de ser considerado um Judeu crente.
 
Maimonides e seus discípulos, no entanto, confirmaram conscientemente cada um dos pontos. Na disputa acima, opôs-se, no célebre livro "Guia dos Perplexos", que se alguém crê que D'us tem um corpo físico, este também seria divisível, uma vez que todos os corpos físicos são. Ele seria também limitado, e uma vez que corpos físicos ocupam tempo, tendo um princípio, teriam também um tamanho e/ou envergadura finita. Essencialmente, uma vez negando um dos últimos onze princípios estaria indirectamente implícita a violação dos dois primeiros, que todos concordam fazer parte do sine qua non do ser Judeu.

Uma outra grande disputa, teve uma direcção absolutamente oposta: Como poderia haver somente 13 princípios? Não teria um Judeu de crer que toda a letra, toda a palavra na Torah é verdadeira? Não seria um caso mais grave de "apikorsus" o facto de alguém que negasse uma só palavra da Torah do que alguém que negasse a vinda do Messias.
 
Apesar de tudo, nos últimos 800 anos, os 13 princípios de Maimonides foram aceites pelos judeus. Eles formam parte integrante das rezas diárias e na forma de hino composto pelo Rabino Daniel Ben-Yehuda por volta do ano 1300 EC em Roma, de seu nome "Ygdal" (hebraico: Magnífico).
 
O impacto que tiveram, inclusive no pensamento de diversos filósofos cristãos, é difícil de apurar, mas formam certamente parte significativa dos pilares da herança monoteísta que os Judeus deram ao mundo.

 
NOTAS:
 
(1) O título original do comentário foi "O Livro da Luz" em árabe Kitab al-Sira, e ocasionalmente designado como Sefer Ha-Ma'or em hebraico.

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publicado por Marco Moreira às 16:29
 
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