Domingo, 24 de Agosto de 2008
 
Nos quatro dias de glória da Convenção Democrata não se falava de outra coisa senão Obama e Mudança. O “messias” democrata levou o seu rebanho ao nirvana com a retórica de Biden, Clinton e Ca. A máquina estava bem oleada e era arrasadora e irresistível para com os crentes da mudança. Uma mudança que os americanos poderiam Crer como uma fé. Perfeita, ou quase.
 
McCain, com um nome, arrasou por completo o hipnotismo político de Obama e seus acérrimos apoiantes. Anunciada sexta-feira logo após a Convenção Democrata, a escolha de Sarah Palin, Governadora do Alaska, para Vice-Presidente dos Repúblicanos, seca por completo o sucesso dos democratas.
 
18 milhões de democratas queriam uma mulher na Casa Branca e eis que é o republicano John McCain que lhes dá essa possibilidade.
 
Ao contrário da escolha de Biden nos democratas, que é uma clara escolha do aparelho e que serve essencialmente para colmatar a falta de experiência notória de Obama, McCain volta a ser igual a si próprio e transpira a imagem pragmática de uma mudança real sem recorrer a “messianismos” políticos.
 
Sarah Palin é fresca, perseverante, trabalhadora, coerente… uma fonte de virtudes no seio da conspiratória e falsa-moralista política americana.
 
Mãe de cinco filhos, o mais velho de 18 alistou-se para o Iraque e o mais novo sofre de Síndroma de Down. Palin decidiu escolher a vida, mesmo sabendo das suas condições clínicas ainda a tempo de escolher abortar. É uma activista Pró-vida, defensora do uso de armas para defesa pessoal e mais do que isso; é alguém que os americanos imaginam ter como vizinho, a fazer as compras e a mudar as fraldas dos filhos. É uma americana real e o símbolo da força “maverick”.
 
Com esta jogada de mestre, McCain consegue colmatar as suas lacunas e volta ele próprio a ficar fresco numa luta cada vez mais renhida. Volta a lutar pelo eleitorado feminino, o eleitorado trabalhador e o eleitorado evangélico, para não falar no poderoso “lobby” das armas.
 
Nada mau para um velhote!


publicado por Marco Moreira às 15:27
Domingo, 24 de Agosto de 2008
«(…) as pessoas religiosas, especialmente aquelas que vivem na América e no mundo islâmico estão habituados que seja feito tudo à sua maneira. E são extremamente intolerantes para com os ateus» Richard Dawkins in CNN “Atheists in America”
 
Será que existem ateus igualmente intolerantes para com a religião e os dogmas da mesma? Obviamente que sim e não precisamos de ir longe para encontrar um particular exemplo dessa intolerância. Claro está que falo do meu fundamentalista ateu “preferido”.
 
 
Richard Dawkins numa das suas muitas palestras em que prefere falar dos defeitos da religião que as virtudes do ateísmo dá uma, muito pessoal, interpretação dos escritos sagrados dos judeus (Torah) e cristãos (Velho Testamento).
 
Ele dá o exemplo de um castigo aplicado pela profanação do dia sagrado do Shabat a alguém que é encontrado a apanhar lenha no dia de descanço obrigatório. Curiosamente, faz menção que ao longo de todo o livro os hebreus são avisados por D’us, que não deverão fazer qualquer trabalho (em hebraico – melachah) nesse dia. De facto é bem verdade que não só D’us avisa que não poderão fazer qualquer trabalho nesse dia, como deixa bem claro qual o castigo para tal transgressão - a Morte.
 
Parece muito duro que D’us Todo-Poderoso e Misericordioso possa aplicar este castigo, principalmente para a compreensão do moderno mundo ocidental. Mas se pensarmos de um ponto de vista pragmático devemos ter em consideração que os hebreus tinham nessa altura aceite um pacto eterno para com D’us desde a Revelação no Sinai. As “regras do jogo” tinham sido acordadas por ambas as partes e quem não estivesse de acordo poderia sair desse mesmo pacto à partida. Uma lição de democracia.
 
Mas Dawkins não aprofunda o tema como é seu apanágio. Prefere continuar a sua hipnótica palestra da “Religião e os seus males” sem que certas explicações sejam dadas e contextualizadas.
 
Mas, certamente que Dawkins também sabe o Judaísmo é uma religião rabínica e não bíblica. Isto é, baseada nas interpretações dos maiores sábios judaicos, ao longo da sua vasta história, da Torah e o restante Tanach (Bíblia Hebraica).
 
Será que Dawkins deu atenção a alguma dessas interpretações, ou limitou-se a ler um texto que, sem as devidas interpretações, pode transformar a palavra divina em algo arcaico e aterrador?
 
Declaradamente apesar de académico, escolheu a via mais simples e rápida e deixa as interpretações finais para si próprio. Afinal ele tem sempre razão… certo?!
 
Rashi (Rabino Shlomo Ytzchaki), o exegeta francês do século XI da Era Comum interpreta a passagem depois de um intenso estudo e leitura da Lei escrita (Torah) e da Lei Oral (Mishná) e sobre os versículo descrito escreve o seguinte:
 
«Aqueles que o encontraram avisaram-no que parasse de profanar o Shabat, mas este não parou de juntar a lenha mesmo depois de ser encontrado a fazê-lo e ser avisado do seu erro.» Sanhedrin 90a, Sifrei Shelach 55
Acontece que isto é normativo para a Lei Judaica (Halachá), mas Dawkins não achou importante realçar. Preferiu “cómicamente” realçar o “mau humor” de D’us naquele dia: "D’us não estava para meias-medidas naquele dia".
 
Também não mencionou que no versículo imediato a este acontecimento, D’us, apesar de ter deixado bem claro – uma vez mais - com o exemplo capital que hebreus que não deveriam trabalhar no Shabat sob pena de morte, ordena aos mesmos que coloquem franjas nos cantos da roupa (tzitzit – recordatórios dos 613 mandamentos) de forma a que estes sem lembrem do cumprimento das mitzvoth (mandamentos - preceitos judaicos).
 
Recorrendo ao sentimentalismo barato e a um moralismo simplório Dawkins prefere divagar: "Será que esse pobre apanhador de lenha tinha mulher e filhos para chorar por ele?"
 
Mas se preferem as interpretações de Dawkins à de Rashi e de todos os grandes comentadores da Torah ao longo dos tempos pergunto: Que ideia estará Dawkins a dar de D’us, do seu Povo e do seu Livro, com a sua interpretação?
 
Na minha opinião, perguntem a um anti-semita, pois ele certamente terá a resposta.


publicado por Marco Moreira às 15:14
Domingo, 10 de Agosto de 2008

Foto © EPA / Zurab Kurtsikidze

 

Infelizmente temos de admitir que a situação na Geórgia não é totalmente surpreendente, mas sim o culminar de uma tensão que já existia à muito tempo.
 
De ambas as partes há, na minha opinião, um oportunismo político revoltante, uma vez que usa e abusa do teatro sangrento da guerra para propagandear bandeiras de força, poder e vitimização ao mundo. Em fundo vermelho começa este teatro a escrever aquilo que pode bem ser uma gigantesca tragédia real. De facto já está a sê-lo.
 
Parece-me estranho que o presidente da Geórgia horas depois de acordar tréguas com os separatistas da Ossétia do Sul decida dar o primeiro passo sabendo de antemão que a Rússia de Putin não iria ficar parada a assistir aquilo que acabariam por considerar uma agressão. Mikhail Saakashvili também sabia que só com as imagens grotescas de corpos de geórgianos conseguiria a atenção da União Europeia, dos Estados Unidos da Améria e da NATO que tanto anseia fazer parte. Seria uma boa manobra de aproximação! Bastava vitimizar o seu povo como se de cobaias se tratassem.
 
Fico apreensivo com aquilo que a Rússia poderá vir a fazer, pois saudosa do Exército Vermelho, a Geórgia acaba por ser o país “ideal” para uma lição de força devido à sua vulnerabilidade. Putin anseia por uma demonstração de poder bélico da sua “Russia Unida” e só podemos imaginar a ambição sangrenta deste ditador disfarçado numa altura que a guerra é cada vez mais uma certeza.
 
Para ajudar ao mapa político-estratégico, o actual presidente russo, Dmitri Medveded encontra-se numa fase de afirmação ao seu sucessor Putin e como qualquer delfim, quer dar razões de orgulho ao seu mestre e mentor político.
 
Com a questão energética na ordem do dia e a Europa com poucos recursos para poder banir sem tréguas as ofensivas russas devido à grande quota parte de energia fornecida pela mesma, basta-nos rezar para que algum iluminado na política europeia consiga mediar este confronto que se encontra no fio da navalha.
 
Sarkozy parte amanhã para Moscovo e Tiblisi. Será (de novo) ele a resposta?


publicado por Marco Moreira às 15:07
Domingo, 10 de Agosto de 2008
Desenganem-se aqueles que pensam que me refiro à revolução sexual dos anos ‘60 e nas suas consequências da visão que temos hoje da sexualidade. É óbvio que se trata da época recente onde a grande maioria dos acontecimentos girava à volta de uma revolução sexual, de facto. Mas a revolução dos anos ‘60 que todos tomariam como simbólica com os valores da liberdade e igualdade acabaram por se transformar em “valores” libertários vivamente conotados com a libertinagem. Seria essa a mensagem de liberdade que os homens e mulheres de então queriam passar às gerações vindouras?
 
Mikveh medieval na cidade alemã de Speyer - Ano 1128 Era comum
 
Sumariando alguns dos feitos e efeitos desta mesma revolução podemos relacionar a mesma com:
 
  1. O facto da sexualidade ser uma nova arma e alvo político-social; 
  2. A alteração nas relações e o papel entre marido-mulher desde a famosa “queima dos soutiens”; 
  3. A mobilização de organizações gays e lésbicas;
  4. As reformas legais e mesmo cientificas da regulamentação sexual;
  5. A incrementação de negócios do sexo enquanto entretenimento, como a pornografia e a prostituição.
 
Todos eles são reflexo dessa mesma revolução. Como qualquer revolução criada pelos homens não foi perfeita e muito menos algumas das suas consequências. E não é preciso ter “canais descodificados” para nos apercebermos disso. Basta ligar a MTV…
 
Mas não é essa revolução que pessoalmente considero “A Revolução Sexual”. Esta tem uma origem muito mais antiga e uma vez que foi criada por D’us corre “o sério risco” de ser perfeita!
 
Com a Revelação no Sinai, nasceu também uma revolução da ética e da moral. Dos preceitos que D’us deu aos hebreus aquele que foca este tema chama-se Taharat Hamishpachá, isto é, Pureza familiar.
 
Os judeus observantes praticam-na desde esse tempo e desde esse tempo têm permanecido imunes às diferentes maleitas que o sexo irresponsável tem contribuido para destronar o Homem da sua condição humana e reduzindo-a à de um animal.
 
Mas o que têm de tão especial estas leis? Uma vez que é impossível resumir a sua importância, proponho a leitura da parashat Balak no Livro de Bamidbar (Números). Bilam, um profeta pagão, é contratado pelo Rei de Moav para amaldiçoar o Povo de Israel. Mas eis que, quando este se preparava para amaldiçoar o Povo de Israel acaba por abençoa-lo! A que se deve este milagre?
 
Bilam estava admirado pela destreza e maneira engenhosa que cada tenda, de cada família de Israel, era colocada de forma a que ninguém pudesse ver o que se passava nas habitações vizinhas. Alguém que no deserto se preocupa tanto com o seu recato não merece ser amaldiçoado, mas sim abençoado – terá pensado o profeta pagão. E exclamou: 
«Ma Tovu Ohalecha Yaacov, Mishkenotecha Israel» tradução: Quão belas são as tuas tendas Oh Jacob, as tuas moradas Oh Israel!
Curiosamente a mesma frase que hoje milhões de judeus exclamam ao entrar na sinagoga em homenagem a esse mesmo episódio e ao recato do seu povo. Originalmente dito por um profeta pagão…
 
Hoje em dia temos habitações de “pedra” com portas e janelas. Então, porque não conseguimos seguir este mesmo exemplo de recato? Quantas vezes não ouvimos dizer “É só sexo!”
 
Porque é impossível controlar este ímpeto?!
 
O Homem conseguiu controlar o fogo que era uma força externa ao seu corpo e com isso melhorar a sua vida e condição. Mas não consegue controlar os impulsos sexuais?!
 
Talvez a resposta neste desdém no recato e no respeito pela nossa sexualidade venha com uma outra revolução. A de Platão. Platão dizia que a alma é boa, o corpo é mau. Curiosamente numa fase da teologia cristã, S. Agostinho e Martinho Lutero, provavelmente influenciados por este conceito, perpetuaram a ideia que sexo era algo mau e que deveria servir somente para procriação. Com a rebeldia dos ’60 este conceito acabou por ser fulminado com o conceito de “free love” como forma de repulsa ao moralismo religioso. Mas será que D’us “acha” que o sexo é mau?
 
De facto não é assim. Caso contrário não nos teria criado com a potência de sentir prazer durante as relações maritais. O próprio conceito “relação marital”, utilizado pelos judeus observantes deixou de fazer sentido para o moderno mundo ocidental, porque sexo não se faz só no casamento. “É só sexo!”
 
Mas o que diz o Tanach a esse propósito? Em Mishlei 5:15 (Provérbios) encontramos a resposta deste respeito que D’us pretende que se tenha ao sexo:
«Bebe a água da tua própria cisterna, e das correntes do teu poço. Derramar-se-iam as tuas fontes para fora, e pelas ruas os ribeiros de águas? Sejam para ti só, e não para os estranhos juntamente contigo. Seja bendito o teu manancial; e regozija-te na mulher da tua mocidade. Como corça amorosa, e graciosa cabra montesa saciem-te os seus seios em todo o tempo; e pelo seu amor sê encantado perpetuamente. E por que, filho meu, andarias atraído pela mulher licenciosa, e abraçarias o seio da adúltera? Porque os caminhos do homem estão diante dos olhos do Senhor, o qual observa todas as suas veredas. Quanto ao ímpio, as suas próprias iniquidades o prenderão, e pelas cordas do seu pecado será detido. Ele morre pela falta de disciplina; e pelo excesso da sua loucura anda errado.»
 
Afinal sexo é muito bom. Mas como tudo na vida, tem os seus próprios limites. Uma simples questão de auto-disciplina!
 
E se parece impossível controlar o que temos entre as pernas, porque não controlar o que temos entre as orelhas? A nossa própria mente e a nossa própria consciência. Se o raciocínio é o que nos difere dos demais animais porquê comportar-nos de uma forma desumana? Quando descobrirmos de novo estes valores, descobriremos de novo a verdadeira "Revolução Sexual".

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publicado por Marco Moreira às 10:37
 
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