Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

 

Há uma série de explicações fascinantes sobre este assunto nos comentários clássicos judaicos. Comecemos pelo Talmud da Babilónia (Tratado Sanhedrin 109a), onde encontramos três tradições; Na Escola do Rabino Shila foi ensinado que a torre foi construída com a intenção de furar os céus com cinzas para drenar toda a água, tornando "impossível" a D'us enviar uma nova inundação, caso O atormentassem de novo. O Rabino Yirmiya bar Elazar ensinou que haviam de facto três grupos; cada um com o seu plano para a torre: Um grupo planeava subir a torre, caso outra inundação tivesse lugar. Outro queria usá-la como relicário idólatra. E finalmente um terceiro queria que se torna-se uma plataforma para poder lutar com D'us. Rabino Natan, por sua vez, ensinou que o plano era tão "somente" servir ídolos.

 

O Targum de Jerusalém explica que a torre seria coroada por uma forma humana segurando uma espada nas mãos - um acto de desafio contra D'us, a quem esperavam suplantar.

 

Um ensinamento interessante do Midrash subsiste que os homens temiam que os céus entrassem em colapso com regularidade, a cada 1656 anos (data da primeira inundação) e que haviam decidido construir um andaime para suportar os mesmos.

 

O Maharal (Rabino Yehuda Lowe de Praga) explica que o Midrash e os ensinamentos do Rabino Shila significam que os homens viram a inundação como uma ocorrência natural que resultou de movimentos das esferas celestiais e o seu posicionamento nos céus. O propósito da torre servia para, de algum modo, mudar aquilo que eles entendiam como "padrão metereológico natural".

 

O Rabino Obadiah Sforno (sec. XV e XVI) explica que o plano de colocar um ídolo no topo da torre seria tão fascinante que iria ganhar aclamação universal enquanto maior relicário do mundo e maior deus pagão, tonando-a centro de idolatria para todos - com o resultado que, quem governasse a cidade, governaria também a humanidade.

 

Rabbeinu Bachya (sec. XIII e XIV) dá uma série de explicações. A um nível elementar, explica que o plano era construir um monumento que seria visto a quilómetros de distância. Quiseram determinar juntos, decidindo que iriam todos permancer naquela área. Sem embargo, alguém que se afastasse da metrópole teria a torre para se guiar. No entanto este não era o plano divino, uma vez que D'us havia criado o homem para habitar em TODO o mundo e torná-lo um lugar melhor.

 

Bachya sugere também que os homens teriam inventado o primeiro pára-raios (!). Sabiam que D'us havia prometido não enviar uma nova inundação, e temeram que Ele, desta vez punisse aqueles que se rebelassem com Fogo. Esperavam que a torre servisse para divergir qualquer tempestade eléctrica que D'us iria lançar nas suas direcções. [ Note-se que Bachya viveu muitos séculos antes de Franklin...! ]

 

O Netziv (Rabino Naphtali Tzvi Yehuda Berlin - sec. XIX) tem uma visão fascinante e instructiva sobre o plano. Este explica que estes homens seriam os primeiros engenheiros socialistas a habitar na terra - esperando criar uma sociedade utópica onde viveriam todos em igualdade. Temeram que se algumas pessoas criassem colónias e cidades, iriam desenvolver a sua própria cultura e modos de vida singulares. Queriam que todos vivessem num ambiente controlado onde teriam a certeza de permanecer culturalmente homogéneos. A torre servia como uma base onde todas as pessoas se fixariam  - sem deixarem o seu ambiente imediato. O problema com o seu plano é que significava o primeiro passo para um estado tirano onde a liberdade de expressão individual não seria tolerada. Como consequência D'us dividiu-os em nações separadas.

 

O Rebbe Lubavitcher explicou uma vez o episódio da seguinte forma: Planearam uma torre que seria um monumento para inspirar um compromisso com a sua meta - a sobrevivência. Quiseram "dar a si mesmos um nome" - assegurando a continuidade da raça humana.

 

Que fizeram de errado?

 

Viram a sobrevivência como uma finalidade em si mesma. «Vamos dar um nome a nós mesmos», disseram; «vamo-nos assegurar que haverão gerações futuras que irão falar de nós nos livros de história.» Para eles, a vida em si mesma era um ideal, a sobrevivência em si mesma uma virtude.

 

Este foi o princípio do fim. A Natureza abomina o vácuo, e isto é verdade para realidades espirituais também: a menos que uma alma ou causa esteja cheia de conteúdo positivo, a corrupção acabará por entrar. Um nome oco e relicário em breve se torna numa torre de Babel.



publicado por Marco Moreira às 11:49
 
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 Ilustração de Pedro Vieira

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